sábado, 24 de janeiro de 2015

Psicologia: Os Exluidos


Os antigos Hebreus tinham um costume no mínimo inusitado.
Uma vez por ano os sacerdotes pegavam um bode com a pelagem perfeita, sem marcar, e iam de casa em casa, nas aldeias, todos os habitantes, passavam a mão sobre o animal e depositavam todos os seus pecados nele.
Feito isso o animal era levado para o deserto para morrer sozinho, os Hebreus, acreditavam que o bode carregava todas as suas más ações, seus pecados e assim eles estariam livres para recomeçar limpos, não mais impuros, por seus atos e pensamentos inadequados.
Dessa cerimonia antiga, que se deriva o termo “Bode expiatório”.
René Girad (2012) afirma que Cristo foi o último “bode expiatório” da humanidade.
Então como se explica que ainda hoje há tantos excluídos nas sociedades atuais?
Quando uma dúvida surge, deve-se voltar para a história da humanidade.
Depois que os Homens deixaram de serem nômades, e passaram a ter um estilo de vida sedentário, os alimentos já não eram uma prioridade para a maioria e começaram a surgir sujeitos que se especializavam em outras atividades que não a agricultura.
Sempre que uma estrutura social estratificada se estabelece existe indivíduos que por diversas razões não se enquadram nesta composição social.
Assim se tornam os “Bodes expiatórios” dessas sociedades, quando as populações eram pequenas, a solução era simples se expulsava o sujeito e pronto, problema resolvido.
Quanto mais sofisticadas se tornaram, mais indivíduos desse tipo foram surgindo.
Na idade média, eram jogados nas fogueiras, aqueles que pensavam diferentes, e mais uma vez o problema estava resolvido.
Claro que isso é uma simplificação dos problemas, pois não conseguiam se livrar de todos os intelectuais, prostitutas, ladrões, ou seja, todos que viviam à margem da sociedade, os párias. A humanidade viveu e conviveu um período longo de sua história, jogando para baixo do tapete seus problemas com os indivíduos que destoavam de seus princípios.
Para justificar a escravidão: diziam que os escravos não tinham alma, lembrando que na história humana, nem todos os escravos eram negros. Aliás dentro da própria África, as tribos competiam entre si e o vencedor vendia os vencidos para serem escravos. Isso também ocorreu na Grécia Antiga, Roma, Egito, etc.
Para justificar a dominação masculina sobre as mulheres a explicação era a mesma, elas não tinham almas.
Os intelectuais que divergiam com as regras mantidas, a justificativa era que esses possuíam pacto com Satanás, aliás o termo satanás vem do termo do islã saitan, que significa “estrangeiro”, “o que diverge”, o que não concorda.
Assim expurgavam todos os que não concordavam com a maioria, criando uma grande massa de excluídos.
O que mudou hoje em dia?
Não muita coisa, se um determinado grupo, seja, qual for sua formação, religiosa, ideológica, etc. Vê como uma ameaça todo aquele que se comporta ou pensa diferente, e deve de alguma forma ser eliminado, ser o “bode expiatório”, assim os que se enquadram podem dormir sossegados, pois eles não têm pecados para serem purificados, o erro está no outro, aquele que rouba, usa drogas, vive na rua, não trabalha, etc.
Resumindo, as sociedades ainda precisam de indivíduos que carreguem seus “erros”, serem apontados como os causadores de todos os problemas, assim não há a necessidade de aprofundar em determinadas questões conflituosas, a culpa cairá sobre os excluídos, os párias.
Porém há pequenos sinais de que as coisas estão mudando, estão aparecendo indivíduos que não aceitam mais a divisão de classes, lutam pelos direitos dos menos favorecidos, inclusive dos animais, etc.
Isso é um sinal claro que a consciência humana está se ampliando, uma vez que isso acontece, não há volta, só se pode caminhar para frente, se adaptar, construir uma nova sociedade, onde há espaço para todos. Onde não haja exclusão.
Até lá fica um lembrete: Não existe ideologia, religião, partido político, perfeito pois o humano não é perfeito. O ser humano ainda não tem uma plena consciência, para criar um sistema ideal, tem um caminho de descobertas para chegar a isso.
Então fique atento, olhe com atenção todos os sinais e lembre-se que todo fundamentalista, seja ele qual for, está no princípio de seu desenvolvimento, então a solução não poderá vir daí.

Do ponto de vista evolucionário, ainda somos adolescente, tateando o caminho de auto descoberta, possuímos ainda muitos excluídos, muitos “bodes expiatórios”.  





Referência Bibliográfica:

          GIRARD, René. O Bode Expiatório - Col. Estudos Antropológicos. São Paulo: Paulus, 2012.

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