terça-feira, 20 de outubro de 2015

Psicologia: Identidade



O processo de formação da identidade ocorre com a fusão ou introjeção das figuras parentais ao longo do desenvolvimento do indivíduo. Freud (1938, p. 178) citando Goethe simplificou esse conceito “ Aquilo que herdaste de seus pais conquista-o para ser seu”. Essa influência parental (pais e adultos que convivem com a criança) inclui não somente a personalidade dos próprios pais como também a influência da sociedade em que o indivíduo está imerso, como família, tradições étnicas e nacionais. (Ibid, p. 171).
Para Hall (2005), estudioso da identidade na contemporaneidade cita que há diversos tipos de identidades que se formam por diversos fatores externos ao sujeito. Portanto, diferentes tipos de identidades são produtos da construção da sociedade e da história, sendo estas variáveis individuais e coletivas, cada indivíduo possui assim sua própria identidade que se construiu durante o decorrer de sua vida, sendo dinâmica e versátil e em constante construção.
A identidade pode se formar a partir de um processo, onde o outro é assimilado como propriedade e transformado em atributos da personalidade do sujeito em desenvolvimento. A identidade humana se formou a partir de diversos elementos ao longo da sua existência, culminando no Homem atual, como Laplanche define:

Identificação: Processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atribuído do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferencia-se por uma série de identificações. (Laplanche, 2004, p. 226).


A identidade é formada a partir da identificação do sujeito com os elementos que compõem seu meio e pode assumir diferentes padrões como a identidade individual, étnica, religiosa, compondo um mosaico com diferentes prismas que se completam e interagem.
Por ser dinâmica, a identidade individual está em transformação durante toda a vida do sujeito, assumindo diversas complementações. Ou seja, não é por que um indivíduo seja criado dentro de uma religião, ele não possa assumir outra, ou nenhuma.
A identidade está em uma eterna construção, seja, individual ou coletiva, que diz respeito a própria identidade da Humanidade.

Referências Bibliográficas
Freud, S. Esboço de Psicanalise. Volume XXIII (1938). Rio de Janeiro: Imago. 1069.
HALL, S. Identidade cultural na pós modernidade. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan. 2002.
LAPLANCHE, J. Vocabulário da Psicanalise. São Paulo: Martins Fontes. 2004.



domingo, 20 de setembro de 2015

Psicologia: Ubuntu para você




Ao passear pelo meu bairro me deparei com a placa acima colocada na faixada de uma casa. Resolvi compartilhar esse conhecimento.
Ubuntu palavra de origem africana, mais precisamente da etnia Zulu, que pertence ao grupo linguístico bantu.
A palavra Ubuntu traduz diversos conceitos entre eles: “Sou o que sou pelo que nós somos” ou ainda “A humanidade para os outros”.
É uma palavra que transmite a ideia da coletividade, onde um indivíduo depende do outro, ou seja, uma pessoa somente é uma pessoa através (por meio) de outras pessoas.
Essa transmite a ideia de humanidade como um todo consequentemente a solidariedade, cooperação, respeito, acolhimento. Buscando a integração do nosso “eu”, o bem-estar próprio e o de todos ao seu redor, inclusive com o meio ambiente.
Sobre o Ubuntu Nelson Mandela afirmava:

“O Ubuntu” são significa que uma pessoa não se preocupe com o seu progresso pessoal. A questão é: Meu progresso pessoal está ao serviço do progresso da minha comunidade? Isso é o mais importante na vida. E se uma pessoa conseguir viver assim, terá atingido algo muito importante e admirável”.

Assim a palavra Ubuntu tem um significado mais profundo, se refere à humanidade com os outros, trata da própria forma como se comporta uma sociedade.
Ela é justa para todos os seus membros? Todos estão com suas necessidades supridas e integradas? Em última estância estão felizes e em harmonia com o meio em que vivem?
Essa filosofia vinda de um povo considerado por muitos como primitivo (sentido de inferior) pelo eurocentrismo até o século XX, ao contrário do que anunciaram e anunciam a proximidade das hipóteses de estudiosos da mente e comportamento humano, como o Carl G. Jung, Erich Neumann, Jared Diamond, Joseph Campbell e outros.
Mesmo a física quântica que, afirma que tudo e todos estão conectados, isso também é Ubuntu.
Se torna na máxima que se deve procurar para que a humanidade como um todo, atinja uma consciência mais ampla, na sua busca por respostas de seu propósito e meta, frente a si mesmo como indivíduo, sua sociedade e ao próprio planeta.  
Já se passou o tempo de separar e classificar o humano em classes sociais, nacionalidades, religiões, ou qualquer outra forma.
Somos todos Ubuntu...

Ubuntu para vocês.



sábado, 5 de setembro de 2015

Qual a diferença entre Psicologia e Psiquiatria?

Muitas pessoas confundem as duas áreas, pensam que é a mesma coisa, não são.

A Psicologia é a ciência que estuda o processo da mente humana, comportamentos, emoções. E como esses processos são motivados, o que os mantém. Esses processos se refletem nas sensações, emoções, percepção de mundo, aprendizagem, inteligência, etc.

O termo psicologia se deriva do grego, onde psique significa alma (ou seja, emoções) e logos (razão ou conhecimento). A psicologia se deriva da própria filosofia, com Sócrates, Platão, Aristóteles, que tentavam investigar a “Alma Humana”.

René Descartes; filosofo francês, em 1649, reafirma a separação entre corpo e mente.             Pensamento que se tornou padrão até o século XX.

A partir do final do século XIX, a psicologia se separa definitivamente da filosofia, dando origem à psicologia moderna.

Os conhecimentos produzidos pela psicologia hoje (séc. XXI) levaram a uma maior compreensão da complexidade humana, seu comportamento e suas relações.

Existem varias correntes de abordagem na psicologia dependendo da linha de pensamento que seguem como a psicologia analítica (Carl G. Jung), psicanálise (Sigmund Freud), psicodrama (Moreno), etc.

Todas tem em comum a dialética com os sujeitos, ou seja, o psicólogo  NÃO receita remédios. Sua abordagem se dá pelas palavras, levando o sujeito a um autoconhecimento e assim aprender a lidar com suas limitações e seus potenciais. Se o individuo se compreende melhor, sua qualidade de vida melhora.

O psicólogo faz uma faculdade de cinco anos onde estuda a mente, comportamentos, emoções humanas e suas relações com o mundo. Unindo o mundo interno e externo.        

Auxiliando as pessoas a lidarem também com as patologias mentais.

A psiquiatria é uma especialização médica, onde o estudante primeiro fez uma faculdade de medicina onde estudou o corpo e suas patologias e depois faz uma especialidade, onde estuda as patologias mentais, sejam elas de cunho orgânico ou funcional.

Os psiquiatras receitam remédios, indicados para diferenças patologias mentais severas como: A depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, demência, e transtornos de ansiedade graves.  Alguns psiquiatras também fazem psicoterapia.

Em muitos casos é comum os dois profissionais trabalharem juntos em um mesmo caso.

Em casos que há patologias mentais graves a união desses dois profissionais aumentam as chances de uma melhora no quadro significativo.

Eles podem também trabalhar de modo autônomo, nem todo caso precisa da intervenção dos dois profissionais.

Assim saiba quando e porque procurar um dos dois profissionais, sabendo qual o seu objetivo de vida.

Quando se deve procurar um psicólogo?

Quando há problemas de relacionamentos pessoais ou no trabalho, emocionais, educacionais, intelectuais ou mesmo quando se quer se conhecer melhor e saber por que se reage desta ou daquela maneira em determinada situação.

Quando se deve procurar um psiquiatra?

Quando há uma patologia mental severa.


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Psicologia: O Mito do Herói


A criança pequena possui o ego imerso no inconsciente coletivo, ela não distingue o “eu” do mundo exterior, vive em uma simbiose pacifica com a mãe e seu meio, conforme vai se desenvolvendo, percebe que ela e o mundo não são iguais, assim precisa classificar as coisas ao seu redor para formar seu próprio ego distinto.

Para a criança pequena não há nuances, as coisas são definidas entre aquilo que é e o que não é, o que pertence ao seu interior e o que pertence ao exterior.
Neste momento do desenvolvimento se estabelece a dualidade, o certo do errado, o bom e o mal, o feminino e o masculino, não há meio termo.
Alguns mitos se referem a essa fase quando relatam a separação dos elementos da natureza.
No mito dos povos Guarani (no idioma dos índios brasileiros, não existem palavras no plural), Iamandu ou Nhanderu (Sol) é o realizador de toda criação, com ajuda de Araci (a Lua), incluindo o oceano, florestas, animais, estrelas e a própria humanidade a partir de estatuas de barro, soprou a vida nas formas humanas, e depois partiu deixando os humanos com os espíritos do bem e do mal.
Neste relato, já se nota a separação da luz (sol) e da escuridão (lua), o bem e mal, a dualidade já está presente.
Quase todo mito de origem se inicia com o Caos (inconsciente) que muitas vezes assume a figura do feminino (a mãe), ou seja, a figura da mãe simbolicamente se refere ao inconsciente.
Pode-se afirmar que, a ontogenética acompanha a filogenética, o desenvolvimento individual reproduz o desenvolvimento da própria espécie e vice-versa.
Conforme a criança vai crescendo essas separações se tornam cada vez mais nítidas, seria como um emergir do Ego das águas profundas, porém a consciência ainda não está presente.
Ao atingir a adolescência o arquétipo do herói assume, esse desenvolvimento.
Assim o adolescente se transforma em seu próprio herói, há neste momento uma mudança do centro do ego, já não mais a universalidade cósmica do mito, se ultrapassou o mito de criação, agora o homem está no centro do mundo é se tornou visível. Neste momento o ego e a consciência ganham autonomia e se direciona para alcançar a totalidade da personalidade, ele não é mais parte integrante da natureza, o herói se distingue como personalidade humana. O herói é o percursor da humanidade em geral. O seu destino agora é o modelo que deve ser seguido, com atrasos e intervalos os estágios do mito do herói fazem parte das constituintes do desenvolvimento da personalidade de cada indivíduo.
Por isso todo mito de herói narra uma batalha ou tarefa que este deve enfrentar.
Os mitos de Sargon, Moisés, Karna, Édipo, Paris, Telephus, Perseu, Gilgamesh, Cyrus, Romulos, Hercules, Jesus, Siegfrid, Thor, só para citar alguns tem componentes em comum. Existem mitos modernos, como Matrix, Star Wars, Super-Homem, Homem Aranha e qualquer outra história, onde o herói tem que enfrentar várias batalhas para poder se assumir como indivíduo.
Todos relatam a batalha da consciência para se estabelecer como o centro do humano, e a partir de aí construir uma personalidade própria, distinta dos pais ou meio social.
Alguns indivíduos não conseguem enfrentar essas batalhas e retornam aos estágios iniciais, onde o ego fica mergulhado no inconsciente. São aqueles indivíduos que tem posturas rígidas perante os outros, não admitem serem contrariados, não aceitam que pensem diferentes deles. Passam a vida imersos no inconsciente, tentando voltar para o aconchego do útero primordial (o paraíso perdido).
A jornada do herói possui as mesmas características, os mesmos passos, seja essa jornada pessoal ou coletiva.



Ao herói que enfrenta a batalha e consegue ultrapassar essa fase, os louros da vitória, o desenvolvimento da consciência. A reintegração com o inconsciente, agora representado como o universo, cosmo, etc. mantendo sua individuação, ou seja, seu “ego”.
A união do macrocosmo com o microcosmo.
O símbolo dessa etapa do desenvolvimento é a Mandala, presente em todas as culturas, o ponto máximo de desenvolvimento da consciência humana.



Referências bibliográficas

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento, 1995.
NEUMANN, Erich. A Historia da Consciência Humana. São Paulo: Cutrix, 1995.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. São Paulo: Nova Fronteira, 2008.
_____ O Livro Vermelho. São Paulo: Vozes, 2010. 

sábado, 25 de julho de 2015

Psicologia: Somos o que pensamos?


Somos o que pensamos?
Quantas vezes você escutou isso e não se compreendeu?
Antes de sermos o que pensamos somos os que sentimos.
Os sentimentos tem um efeito físico sobre o metabolismo e provocam mudanças profundas no organismo.
O cortisol, hormônio que tem a função de regular o estresse no metabolismo, provocando a homeostase do organismo após estresse físico ou emocional, conservar o equilíbrio interno, o cortisol também funciona como um antagonista da insulina, promovendo a quebra de moléculas de carboidratos, lipídios e proteínas para mobilizar resevas energéticas.
Porém se a produção do cortisol for muito alta e sem interrupção, poderá provocar excesso de estresse, insônia, perda de massa muscular, depressão, baixa do sistema imunológico, baixa aprendizagem, excesso de peso, alteração do humor, etc.
As emoções que desencadeiam o aumento da produção do cortisol são: raiva, insegurança, medo.
Cria-se um circulo vicioso, onde essas emoções produzem mais cortisol e este por sua vez desencadeia uma serie de sintomas prejudiciais.
Temos ai à receita certa para a infelicidade.
Por outro lado emoções como alegria, satisfação, amor próprio, aumenta a produção de serotonina, neurotransmissor, um mensageiro do cérebro.
A serotonina regula o bom sono, combate a ansiedade, a depressão, produz sensação de bem estar.
Assim cada emoção mobiliza um circuito hormonal que terá impacto em todo o organismo.
Isso quer disser que devemos parar de sentir as emoções ditas negativas?
Na realidade não existem emoções negativas, existem emoções mal elaboradas.
Quanto uma pessoa se conhece, sabe colocar a emoção certa no momento certo, sem transferir para situações que não estão correlacionadas.
Por exemplo: Uma pessoa está na fila do banco, outra vem é passa na sua frente, a pessoa fica indignada pela falta de educação, porém não tem coragem de disser como se sente para um estranho, engole a raiva e vai trabalhar, na primeira oportunidade, descarregará a raiva no primeiro amigo que aparecer na sua frente, como a emoção não era destinada ao amigo, ficará chateado, pronto se criou o circulo vicioso.
Claro que o exemplo acima é uma simplificação do problema, mas, serve como exemplo do que a maioria das pessoas faz durante a vida, sempre engolindo as emoções e não as expressando de maneira correta.
O autoconhecimento é o principal fator de amadurecimento e trás consigo a paz que tantos invocam.
Saber reconhecer o que se sente e aprender a lidar com as emoções é o objetivo principal para a felicidade de qualquer um.
A psicoterapia pode ajudar nesse autoconhecimento, porém não é o único caminho.
Encontre o seu jeito, se não conseguir sozinho não tenha vergonha de pedir ajuda.


sexta-feira, 17 de julho de 2015

Psicologia: Mito, no inicio era o Caos.



       O termo Mito tem origem na palavra grega mithós.
       Os mitos são uma narrativa simbólica que dão significados da origem das coisas, como o homem, a natureza, fenômenos.
       Todas as culturas possuem mitos e existe uma singularidade entre os mitos de diversas etnias, todos descrevem as fases, o desenvolvimento humano, seja individual ou coletivo.
       Os mitos surgem na aurora da humanidade e persistem até os dias atuais. Eles se modificam, mas permanecem vivos. A expressão dos mitos nos dias atuais, se dá através de simbologia, nos filmes, nas crenças, nos relacionamentos interpessoais. O mito está permeado nas culturas humanas, todos os humanos, sem exceção, estão emersos nos mitos.

       A partir dessa concepção se percebe a importância de se estudá-los, para se compreender melhor o indivíduo, sua cultura, seu desenvolvimento e mesmo sua interação com o meio em que está inserido.
No Mito o indivíduo é capaz de criar e recriar o mundo em si e no mundo real  

... como uma aptidão para produzir símbolos mentais complexos e para manipulá-los conforme combinações novas.
É o próprio fundamento da imaginação e da criatividade, dessa capacidade única em seu gênero que os seres humanos têm de criar um mundo em sua mente e de recriá-lo no mundo real, fora de si mesmos... (Tattersal, 1999, p. 26).

       Campbell considera a função do mito como se fosse um caminho que leva o sujeito a uma transformação, desprendendo-o de suas condições históricas locais e conduzindo-o a um tipo de experiência inefável, ao mesmo tempo prende-o ao seu sistema familiar de valores, atividades e crenças historicamente condicionados. (Campbell, 2003, p. 373).
       Ferrari (2001) psicanalista italiano, descreve a concepção de mito como um artificio da mente humana que promulga o ilimitado orbe dos sonhos, do imaginário onírico, um composto realidade-fantasia, uma tensão entre o indivíduo e algo além dele, de maneira característica e representada, a passagem da animalidade para a humanidade (Ferrari, 2001, p. 305).
       Ao estabelecer uma barreira em relação a determinadas funções instintivas, e a discriminação entre o consciente e inconsciente, o mito permite o surgimento de elementos culturais substitutivos.

Assim, o mito revela potencialidades expressivas e delas origina, expressando de forma particular o sentido de “religiosidade” do ser Humano. O mito é visto como um símbolo, cujo núcleo transita entre a individualidade e o universal. (Ibid., 306).

        A origem do mito permite a procedência de uma pluralidade de expressões possíveis que não conseguem promulgar a totalidade da realidade, mas, sim, a discrepância do Homem e de sua relação com o mundo. Do mito surge a criatividade humana e dos arranjos que caracterizam a personalidade. (Ibidem, p. 305) E refletem em certa medida a religiosidade.
         Não é uma coincidência que mitos de várias origens como: egípcia, grega, celta, chinesa, indígena, só para citar algumas, começa sua narrativa mitológica pelo Caos.
No mundo paleolítico o homem se guia pelo ciclo lunar, conhecem bem os ciclos das estações e as migrações dos animais, se integra à natureza. Os homens são a própria natureza, não existindo diferença entre o externo e o interno. Os animais e plantas que servem de alimentos acabam por integrar seu “espirito”, tornando-se parte deles, aquele que deve ser morto para que a vida continue, é respeitado e reverenciado. Não há uma diferenciação entre o “eu” e o outro. O mundo no qual se está inserido não possui classificação, é o Caos, por isso os mitos de origem falam da indiferenciação, do tudo e o nada englobado em um mesmo sistema, o vazio. (Cf. Larre, 1982). Como no mito de Atum do antigo Egito:
No começo havia o Grande Ele/Ela: Atum. Completo, inteiro, perfeito e solitário. Paixão sem forma. Atum era tudo e nada, serpente urobórica mordendo a própria cauda. Um dervixe cósmico (Átomo/Atum) girando no vazio, ou talvez nada mais que espirito. Não havia nem altura, nem profundidade; nem passado, nem futuro. Tudo era escuridão eterna... (Huston, 1997, p. 54).



        No mito acima parece existir uma analogia à situação que se encontra a Mórula humana em gestação (Mórula são as células que se dividem após a fecundação, é um aglomerado de células). Nessa fase embrionária ainda não há diferenciação das células.


       Nem do “eu”, não há uma distinção entre o passado e futuro, consciência, é somente uma promessa do vir a ser, segundo Erikson (1971).
      Como no mito da morte do Caos:

Impulsivo, o rei do Mar do Sul e Atordoado rei do Mar do Norte foram ao meio com o Caos, rei do centro. Eles perguntaram qual serviço podiam lhe fazer para recompensar a virtude do Caos e dizem: os homens possuem sete orifícios com os quais eles veem, ouvem, comem, respiram, só ele não os têm, nós iremos lhe fazer. E se puseram a escava-lo um orifício por dia. No sétimo dia o Caos Morreu. (Zhuang Zi apud Wieger, 1950, p. 269).


      O Caos está no centro, ponto de partida de toda a criação e ordenação. Aquele que tem toda promessa e elemento de ordem. Como a mórula é indistinta, mas uma promessa de tudo que o ser vivo será um dia, suas células são ordenadas, porém indiferenciadas, ainda. Mas, o principio está presente para se diferenciar e programar-se até a formação de um ser completo e capaz.
      O Caos não tem consciência de sua diferença, entre si e o outro ser vivente, é necessário que os outros dois imperadores, notem a diferença e resolvam igualá-lo aos outros, porém ao ordena-lo deixá-lo igual aos outros, o Caos morre para dar origem à outra coisa, deixa de existir como uma coisa sem diferenciação e sem identidade.
      O Caos como uma correspondência ao embrião em formação que se encontra em estado de plenitude, no “paraíso”, pois todas as suas necessidades são supridas, vive em um estado de bem-aventurança passiva e neste estado pode ser comparado ao da beatitude no paraíso.
       O embrião e a criança pequena vivem imerso no inconsciente, seu ego ainda não está desenvolvido, é o que Neumann (2003) nomeia de estado Urobórico.


        O símbolo da cobra que morde o próprio rabo, ou seja, ela está contida em um estado primal, onde dentro do inconsciente se sente completo.
Assim os mitos vão descrevendo cada etapa do desenvolvimento humano, deste, sua origem até a plena maturidade.
Sendo o desenvolvimento individual um reflexo do desenvolvimento da espécie e vice-versa.
        Aqui só foi descrido o início dessa jornada, a primeira etapa desse desenvolvimento.
Mas, nesse processo chegará o momento em que a Urubóros se transformará na Mandala, ápice dessa jornada.
        Por isso, que o símbolo da mandala aparece em diversas épocas da história e em diferentes povos, inclusive nos dias atuais.
        E para cada etapa existe um mito correspondente, assim o mito permanece, sendo o guia para cada indivíduo que o reconhece como tal.
Saber que não se o único que percorreu essa estrada é nem será o último, em certa medida traz segurança, pois nessa busca pela plenitude não se está sozinho, existem muitos que já percorreram esse caminho e muitos que ainda virão a percorre-la.  



Referências bibliográficas

CAMPBELL, J. A Máscara de Deus. – Mitologia Primitiva. São Paulo: àlas Athena. 2003.
ERIKSON, E. H. Identidade, Juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. 1991
FERRARI, A. B. Individuo – Universo dos Mitos. Revista Brasileira de Psicanalise. Vol 35, número 2. São Paulo: S/E. 2001.
HUSTON, J. The passion of Isis and Osiris: a union of two souls. New York: Randon Hause. 1995.
NEUMANN, E. História da origem da consciência. São Paulo: Pensamento. 2003.
LARRE, C. Les Chinois, Auzu, historie ancienne des Peuples. Paris: Lidy. 1982.
TATTAERSAL, I. L’émerge de l’homme – Essai sur l’évolutium et l’unicité humane. Paris: Gallimard. 1999.
WIEGER, L. Les Péres du Systéme Taoiste. Paris: Cathaisa. 1950. 

sábado, 27 de junho de 2015

Psicologia: A Morte "Pasteurizada"


          
         Morte do latim mors, óbito do latim obitu, passamento (passar+mento) ou ainda desencarne (deixar a carne), são sinônimos de um mesmo fenômeno, o processo irreversível de encerramento das atividades biológicas.
Um processo correspondente à própria vida, que muitas vezes se torna uma tragédia na vida das pessoas que perdem alguém.
Antigamente, quando várias gerações conviviam juntas, o processo de nascimento e da morte eram vistos como algo natural que fazia parte da vida.
Agora, geralmente, a morte é isolada da sociedade, a pessoa à beira da morte é colocada em um hospital, onde tudo é esterilizado em um ambiente “pasteurizado” inclusive as emoções.
Os rituais fúnebres ajudam as pessoas a elaborar o sentimento de perda, porém não há mais tempo para se processar os sentimentos de perda, mas já acabado as cerimônias fúnebres são exigidas as retomadas dos afazeres diários, o tempo urge, pois, então torna-se necessário retomar as atividades cotidianas, como se nada houvesse acontecido.
Passa-se a sentir um sentimento de inadequação por experimentar o pesar, sentir que não se enquadra nas demandas exigidas do dia a dia.
O assunto da perda se transforma em tabu, pois ninguém está disposto a discutir o assunto com aquele que passou por essa experiência, é como se houvesse um tempo determinado para se lamentar.
Normalmente isso ocorre, porque quando alguém morre, arremete-se a verdade que todos um dia vão morrer, e admitir a própria mortalidade é um momento difícil.
Ninguém quer aceitar que um dia vai passar dessa para uma outra condição, a ideia de não existência para o ser humano é inconcebível.
A não existência, não é assimilada pelas pessoas em geral, enfrentar a possibilidade da própria morte, é aceitar a aniquilação da consciência, coisa que muitos não estão preparados.
No entanto no fundo a “não existência” está presente em todos os momentos da vida. Em certa medida é ela que dá sentido à existência.
O ser humano é contraditório neste sentido, ao mesmo tempo em que não quer existir, fato esse que ocorre quando se está submerso no inconsciente e não é o senhor do seu destino, essa situação é cômoda, pois as decisões não são tomadas por ele, não se assume responsabilidade por suas ações, esse é o ego, que não submergiu do inconsciente, ele se encontra no “paraíso perdido”, onde o “Eu” não existe.
Por outro lado, o ser quer existir, emergir do inconsciente, formar o próprio ego, ser o senhor de sua própria existência, domar o dragão (inconsciente) e sair vitorioso dessa batalha interior.
Ao construir o próprio ego, depara-se com a realidade da sua própria inexistência, sua finitude e aceita essa realidade.
Quanto mais se discute sobre a morte, mais fácil se torna lidar com ela, e começa-se a perceber que antes de uma maldição é uma benção, pois é isto que nos iguala, é a própria morte que dá uma finalidade à vida.  
Assim, ao se negar a morte não precisa enfrentar os próprios conflitos, não precisa crescer e reivindicar sua condição de ser único dentro de uma sociedade, que também se nega a crescer.



segunda-feira, 15 de junho de 2015

Psicologia/Física Quântica: Sincronicidade, Consciência


A Sincronicidade, conceito desenvolvido por Carl G. Jung, em um de seus últimos trabalhos: “Sincronicidade: Um princípio de conexões acausais”.
A teoria da sincronicidade tenta explicar situações que não possuem causas aparentes e sem conexões, que acontecem simultaneamente entre indivíduos sem relação entre si, ou situações anômalas.
Por exemplo: descobertas cientificas que ocorrem ao mesmo tempo em países diferentes, sem que os cientistas tivessem contato algum. Ou, quando uma pessoa pensa em outra e a vê passar na rua, ou ainda, esta pessoa aparece de visita. Vários são os exemplos de sincronicidade, podendo acontecer de forma atemporal, ou até mesmo, eventos enérgicos acausais (sem causa). 
A sincronicidade não é um evento de coincidência, pois, não corresponde às leis da probabilidade e apresenta um padrão subjacente, dinâmico, significativo para as pessoas envolvidas. Então, a sincronicidade pode ter um efeito revelador para os envolvidos pelo fenômeno, levando o indivíduo a atingir um patamar maior da consciência chegando ao autoconhecimento, como Jung chamava: individuação.
Na ocorrência de integração do indivíduo como um todo, entre o inconsciente coletivo, o inconsciente individual, os arquétipos e o próprio ego, ou seja, o indivíduo chega a sua plenitude, entre si e o universo (ou se preferir deus).
Jung teve contato com o físico Wolfgang Pauli, que juntos começaram a associar as disciplinas, a física e a psicologia.
Com a sua teoria sobre a sincronicidade e afiliação com Pauli, Jung sugere que o Homem pode alterar sua realidade, pode controlar os eventos de sua vida.
Na época que Jung se deparou com esses fenômenos, não havia parâmetros de pesquisas cientificas, para se comprovar esses acontecimentos.
No entanto pesquisadores posteriores levaram adiante as pesquisas de que há possibilidade de o Homem influenciar os eventos.
Entre eles, pode-se citar o Massaru Emoto, que realiza experimentos com as moléculas d’água. Ele observa que, as emoções que os voluntários emitem sobre a água provoca mudanças moleculares d’água evidentes e completas dependendo da emoção emitida.
As pesquisas de Dean Radin e colaboradores, também comprovam que a mente humana pode interferir na matéria e modificar a realidade. Ele realiza experiências com indivíduos e com eventos de massa. Em ambos os casos há indícios de que os sujeitos estão interligados, e quando um grande número de pessoas se concentra em um único evento, os acontecimentos podem tomar outro rumo.
Os estudos de Bill Tiller caminham, também, por essa estrada, estuda principalmente a consciência e os seus efeitos na realidade, como já se sabe.
Os cientistas mais tradicionais acreditam que a consciência é um subproduto do cérebro. Porém, segundo os pesquisadores supracitados que avançaram ainda mais no tema proposto afirmam que a consciência é algo mais abrangente e se manifesta além do cérebro, ou seja, não é um produto cerebral. O que ela realmente é, e de onde provém, ainda está no nível das especulações.
Porém, esses trabalhos comprovam que seja ela o que for, tem influência na realidade imediata e na futura.   
Assim, a grande pergunta é: se a mente humana pode alterar a matéria e transformar inclusive a realidade, porque não se tem domínio sobre as condições em que se vive? Por que há sofrimento, não se consegue melhorar o próprio Mundo?
A resposta: A Humanidade como espécie se encontra em um nível de desenvolvimento ainda precoce. Para se ter uma ideia da “juventude” da humanidade, o Homo sapiens existe há mais ou menos 170 mil anos, os dinossauros viveram 300 milhões de anos.    
O estágio atual da humanidade, talvez seja comparado com a fase da adolescência, não se pode generalizar essa afirmação, nem considerar como sendo uma verdade absoluta. Mas, ao se analisar o comportamento adolescente, se encontram muitos pontos em comum. O adolescente ainda não atingiu o seu ponto máximo de desenvolvimento psicológico. A adolescência é uma fase de crises, que se procura aceitação do grupo etário a que pertence, divide o seu mundo entre o positivo e negativo, se rebela contra a autoridade vigente (pais, professores, e figuras de poder), no entanto procura a aceitação dos mesmos, ou seja, é dicotômico em quase tudo o que faz, pois, tenta definir seu ego, como algo separado do mundo exterior, por isso sofre tantas crises de identidade.
A humanidade como grupo não tomou posse da consciência e de seus potenciais. Assim, ainda não tem o arcabouço psicológico para alterar o seu meio, conscientemente para melhor. Ainda não desenvolveu um modelo político, ambiental, religioso, social capaz de suprir a todos.
De certa forma a Humanidade sofre as mesmas questões elementares dos adolescentes, ainda separa o mundo entre estruturas políticas, uma religião da outra, níveis sociais, etc. Ela não consegue discernir que todos pertencem à uma mesma espécie, com as mesmas necessidades inerentes a todos, como amar, ser amado, ser aceito, como também, não consegue perceber a unidade da espécie, e a individualidade de cada um dentro dessa mesma unidade.
Como vários textos ditos sagrados e Hermes Trimegisto afirmam: “O que está acima é semelhante ao que está embaixo”, afirmação que tem a representação no símbolo da “Estrela de David”, onde aparecem dois triângulos superpostos.


Já os alquimistas afirmam: o Microcosmo contém o Macrocosmo, os dois são um só.
Como Jung, Neumann, Mira y Lopez afirmaram a ontogênese acompanha e reflete a filogênese, isso quer dizer, que o desenvolvimento individual reflete o desenvolvimento da espécie e vice-versa. Ou seja, ambos, o indivíduo e a humanidade passam pelos mesmos estágios de desenvolvimento.
Alguns indivíduos atingiram esses potenciais, e cada um que atinge esse nível de consciência, “puxa” os outros para um outro patamar de consciência, isso acontece devido ao inconsciente coletivo, nele todos os seres estão conectados.
Assim, se cada um se conscientizar do seu potencial e se apoderar da sua consciência estará beneficiando não só a si mesmo, mas, toda humanidade.
Levanto-se isso em consideração, é uma questão de tempo que todos estejam no mesmo patamar de conscientização.  

Referências Bibliográficas:

EMOTO; Masaru. www.masru-emoto.net.
JUNG; Carl G. Sincronicidade: Um princípio de conexões acausais. São Paulo: Vozes, 2011.
NEUMANN, Erich. História da origem da consciência. São Paulo: Cultrix, 2010.
MIRA y LOPEZ, Emilio. Cuatro gigantes del alma. Buenos Aires: Lidiun, s/a.  
RADIN; Dean; COLLINS, Harper. The conscious universe: The scientific truth of psychic phenomena. Estados Unidos: 1997.
TILLER, Bill.  http://www.tillernstitute.com/