sexta-feira, 17 de julho de 2015

Psicologia: Mito, no inicio era o Caos.



       O termo Mito tem origem na palavra grega mithós.
       Os mitos são uma narrativa simbólica que dão significados da origem das coisas, como o homem, a natureza, fenômenos.
       Todas as culturas possuem mitos e existe uma singularidade entre os mitos de diversas etnias, todos descrevem as fases, o desenvolvimento humano, seja individual ou coletivo.
       Os mitos surgem na aurora da humanidade e persistem até os dias atuais. Eles se modificam, mas permanecem vivos. A expressão dos mitos nos dias atuais, se dá através de simbologia, nos filmes, nas crenças, nos relacionamentos interpessoais. O mito está permeado nas culturas humanas, todos os humanos, sem exceção, estão emersos nos mitos.

       A partir dessa concepção se percebe a importância de se estudá-los, para se compreender melhor o indivíduo, sua cultura, seu desenvolvimento e mesmo sua interação com o meio em que está inserido.
No Mito o indivíduo é capaz de criar e recriar o mundo em si e no mundo real  

... como uma aptidão para produzir símbolos mentais complexos e para manipulá-los conforme combinações novas.
É o próprio fundamento da imaginação e da criatividade, dessa capacidade única em seu gênero que os seres humanos têm de criar um mundo em sua mente e de recriá-lo no mundo real, fora de si mesmos... (Tattersal, 1999, p. 26).

       Campbell considera a função do mito como se fosse um caminho que leva o sujeito a uma transformação, desprendendo-o de suas condições históricas locais e conduzindo-o a um tipo de experiência inefável, ao mesmo tempo prende-o ao seu sistema familiar de valores, atividades e crenças historicamente condicionados. (Campbell, 2003, p. 373).
       Ferrari (2001) psicanalista italiano, descreve a concepção de mito como um artificio da mente humana que promulga o ilimitado orbe dos sonhos, do imaginário onírico, um composto realidade-fantasia, uma tensão entre o indivíduo e algo além dele, de maneira característica e representada, a passagem da animalidade para a humanidade (Ferrari, 2001, p. 305).
       Ao estabelecer uma barreira em relação a determinadas funções instintivas, e a discriminação entre o consciente e inconsciente, o mito permite o surgimento de elementos culturais substitutivos.

Assim, o mito revela potencialidades expressivas e delas origina, expressando de forma particular o sentido de “religiosidade” do ser Humano. O mito é visto como um símbolo, cujo núcleo transita entre a individualidade e o universal. (Ibid., 306).

        A origem do mito permite a procedência de uma pluralidade de expressões possíveis que não conseguem promulgar a totalidade da realidade, mas, sim, a discrepância do Homem e de sua relação com o mundo. Do mito surge a criatividade humana e dos arranjos que caracterizam a personalidade. (Ibidem, p. 305) E refletem em certa medida a religiosidade.
         Não é uma coincidência que mitos de várias origens como: egípcia, grega, celta, chinesa, indígena, só para citar algumas, começa sua narrativa mitológica pelo Caos.
No mundo paleolítico o homem se guia pelo ciclo lunar, conhecem bem os ciclos das estações e as migrações dos animais, se integra à natureza. Os homens são a própria natureza, não existindo diferença entre o externo e o interno. Os animais e plantas que servem de alimentos acabam por integrar seu “espirito”, tornando-se parte deles, aquele que deve ser morto para que a vida continue, é respeitado e reverenciado. Não há uma diferenciação entre o “eu” e o outro. O mundo no qual se está inserido não possui classificação, é o Caos, por isso os mitos de origem falam da indiferenciação, do tudo e o nada englobado em um mesmo sistema, o vazio. (Cf. Larre, 1982). Como no mito de Atum do antigo Egito:
No começo havia o Grande Ele/Ela: Atum. Completo, inteiro, perfeito e solitário. Paixão sem forma. Atum era tudo e nada, serpente urobórica mordendo a própria cauda. Um dervixe cósmico (Átomo/Atum) girando no vazio, ou talvez nada mais que espirito. Não havia nem altura, nem profundidade; nem passado, nem futuro. Tudo era escuridão eterna... (Huston, 1997, p. 54).



        No mito acima parece existir uma analogia à situação que se encontra a Mórula humana em gestação (Mórula são as células que se dividem após a fecundação, é um aglomerado de células). Nessa fase embrionária ainda não há diferenciação das células.


       Nem do “eu”, não há uma distinção entre o passado e futuro, consciência, é somente uma promessa do vir a ser, segundo Erikson (1971).
      Como no mito da morte do Caos:

Impulsivo, o rei do Mar do Sul e Atordoado rei do Mar do Norte foram ao meio com o Caos, rei do centro. Eles perguntaram qual serviço podiam lhe fazer para recompensar a virtude do Caos e dizem: os homens possuem sete orifícios com os quais eles veem, ouvem, comem, respiram, só ele não os têm, nós iremos lhe fazer. E se puseram a escava-lo um orifício por dia. No sétimo dia o Caos Morreu. (Zhuang Zi apud Wieger, 1950, p. 269).


      O Caos está no centro, ponto de partida de toda a criação e ordenação. Aquele que tem toda promessa e elemento de ordem. Como a mórula é indistinta, mas uma promessa de tudo que o ser vivo será um dia, suas células são ordenadas, porém indiferenciadas, ainda. Mas, o principio está presente para se diferenciar e programar-se até a formação de um ser completo e capaz.
      O Caos não tem consciência de sua diferença, entre si e o outro ser vivente, é necessário que os outros dois imperadores, notem a diferença e resolvam igualá-lo aos outros, porém ao ordena-lo deixá-lo igual aos outros, o Caos morre para dar origem à outra coisa, deixa de existir como uma coisa sem diferenciação e sem identidade.
      O Caos como uma correspondência ao embrião em formação que se encontra em estado de plenitude, no “paraíso”, pois todas as suas necessidades são supridas, vive em um estado de bem-aventurança passiva e neste estado pode ser comparado ao da beatitude no paraíso.
       O embrião e a criança pequena vivem imerso no inconsciente, seu ego ainda não está desenvolvido, é o que Neumann (2003) nomeia de estado Urobórico.


        O símbolo da cobra que morde o próprio rabo, ou seja, ela está contida em um estado primal, onde dentro do inconsciente se sente completo.
Assim os mitos vão descrevendo cada etapa do desenvolvimento humano, deste, sua origem até a plena maturidade.
Sendo o desenvolvimento individual um reflexo do desenvolvimento da espécie e vice-versa.
        Aqui só foi descrido o início dessa jornada, a primeira etapa desse desenvolvimento.
Mas, nesse processo chegará o momento em que a Urubóros se transformará na Mandala, ápice dessa jornada.
        Por isso, que o símbolo da mandala aparece em diversas épocas da história e em diferentes povos, inclusive nos dias atuais.
        E para cada etapa existe um mito correspondente, assim o mito permanece, sendo o guia para cada indivíduo que o reconhece como tal.
Saber que não se o único que percorreu essa estrada é nem será o último, em certa medida traz segurança, pois nessa busca pela plenitude não se está sozinho, existem muitos que já percorreram esse caminho e muitos que ainda virão a percorre-la.  



Referências bibliográficas

CAMPBELL, J. A Máscara de Deus. – Mitologia Primitiva. São Paulo: àlas Athena. 2003.
ERIKSON, E. H. Identidade, Juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. 1991
FERRARI, A. B. Individuo – Universo dos Mitos. Revista Brasileira de Psicanalise. Vol 35, número 2. São Paulo: S/E. 2001.
HUSTON, J. The passion of Isis and Osiris: a union of two souls. New York: Randon Hause. 1995.
NEUMANN, E. História da origem da consciência. São Paulo: Pensamento. 2003.
LARRE, C. Les Chinois, Auzu, historie ancienne des Peuples. Paris: Lidy. 1982.
TATTAERSAL, I. L’émerge de l’homme – Essai sur l’évolutium et l’unicité humane. Paris: Gallimard. 1999.
WIEGER, L. Les Péres du Systéme Taoiste. Paris: Cathaisa. 1950. 

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