O termo Mito tem origem na palavra grega mithós.
Os mitos são uma narrativa simbólica que dão significados da
origem das coisas, como o homem, a natureza, fenômenos.
Todas as culturas possuem mitos e existe uma singularidade
entre os mitos de diversas etnias, todos descrevem as fases, o desenvolvimento
humano, seja individual ou coletivo.
Os mitos surgem na aurora da humanidade e persistem até os
dias atuais. Eles se modificam, mas permanecem vivos. A expressão dos mitos nos
dias atuais, se dá através de simbologia, nos filmes, nas crenças, nos
relacionamentos interpessoais. O mito está permeado nas culturas humanas, todos
os humanos, sem exceção, estão emersos nos mitos.
A partir dessa concepção se percebe a importância de se
estudá-los, para se compreender melhor o indivíduo, sua cultura, seu
desenvolvimento e mesmo sua interação com o meio em que está inserido.
No Mito o indivíduo é capaz de criar e recriar o mundo em
si e no mundo real
... como uma aptidão para produzir
símbolos mentais complexos e para manipulá-los conforme combinações novas.
É o próprio fundamento da imaginação e
da criatividade, dessa capacidade única em seu gênero que os seres humanos têm
de criar um mundo em sua mente e de recriá-lo no mundo real, fora de si
mesmos... (Tattersal, 1999, p. 26).
Campbell considera a função do mito como se fosse um
caminho que leva o sujeito a uma transformação, desprendendo-o de suas condições
históricas locais e conduzindo-o a um tipo de experiência inefável, ao mesmo
tempo prende-o ao seu sistema familiar de valores, atividades e crenças
historicamente condicionados. (Campbell, 2003, p. 373).
Ferrari (2001) psicanalista italiano, descreve a concepção
de mito como um artificio da mente humana que promulga o ilimitado orbe dos
sonhos, do imaginário onírico, um composto realidade-fantasia, uma tensão entre
o indivíduo e algo além dele, de maneira característica e representada, a
passagem da animalidade para a humanidade (Ferrari, 2001, p. 305).
Ao estabelecer uma barreira em relação a determinadas
funções instintivas, e a discriminação entre o consciente e inconsciente, o
mito permite o surgimento de elementos culturais substitutivos.
Assim, o mito revela potencialidades
expressivas e delas origina, expressando de forma particular o sentido de “religiosidade”
do ser Humano. O mito é visto como um símbolo, cujo núcleo transita entre a
individualidade e o universal. (Ibid., 306).
A origem do mito permite a procedência de uma pluralidade
de expressões possíveis que não conseguem promulgar a totalidade da realidade,
mas, sim, a discrepância do Homem e de sua relação com o mundo. Do mito surge a
criatividade humana e dos arranjos que caracterizam a personalidade. (Ibidem,
p. 305) E refletem em certa medida a religiosidade.
Não é uma coincidência que mitos de várias origens como: egípcia,
grega, celta, chinesa, indígena, só para citar algumas, começa sua narrativa mitológica
pelo Caos.
No mundo paleolítico o homem se guia pelo ciclo lunar,
conhecem bem os ciclos das estações e as migrações dos animais, se integra à
natureza. Os homens são a própria natureza, não existindo diferença entre o
externo e o interno. Os animais e plantas que servem de alimentos acabam por integrar
seu “espirito”, tornando-se parte deles, aquele que deve ser morto para que a
vida continue, é respeitado e reverenciado. Não há uma diferenciação entre o “eu”
e o outro. O mundo no qual se está inserido não possui classificação, é o Caos,
por isso os mitos de origem falam da indiferenciação, do tudo e o nada
englobado em um mesmo sistema, o vazio. (Cf. Larre, 1982). Como no mito de Atum
do antigo Egito:
No começo
havia o Grande Ele/Ela: Atum. Completo, inteiro, perfeito e solitário. Paixão
sem forma. Atum era tudo e nada, serpente urobórica mordendo a própria cauda.
Um dervixe cósmico (Átomo/Atum) girando no vazio, ou talvez nada mais que
espirito. Não havia nem altura, nem profundidade; nem passado, nem futuro. Tudo
era escuridão eterna... (Huston, 1997, p. 54).
No mito acima parece existir uma analogia à situação que se
encontra a Mórula humana em gestação (Mórula são as células que se dividem após
a fecundação, é um aglomerado de células). Nessa fase embrionária ainda não há
diferenciação das células.
Nem do “eu”, não há uma distinção entre o passado e futuro,
consciência, é somente uma promessa do vir a ser, segundo Erikson (1971).
Como no mito da morte do Caos:
Impulsivo, o
rei do Mar do Sul e Atordoado rei do Mar do Norte foram ao meio com o Caos, rei
do centro. Eles perguntaram qual serviço podiam lhe fazer para recompensar a
virtude do Caos e dizem: os homens possuem sete orifícios com os quais eles veem,
ouvem, comem, respiram, só ele não os têm, nós iremos lhe fazer. E se puseram a
escava-lo um orifício por dia. No sétimo dia o Caos Morreu. (Zhuang Zi apud Wieger,
1950, p. 269).
O Caos está no centro, ponto de partida de toda a criação e
ordenação. Aquele que tem toda promessa e elemento de ordem. Como a mórula é
indistinta, mas uma promessa de tudo que o ser vivo será um dia, suas células são
ordenadas, porém indiferenciadas, ainda. Mas, o principio está presente para se
diferenciar e programar-se até a formação de um ser completo e capaz.
O Caos não tem consciência de sua diferença, entre si e o
outro ser vivente, é necessário que os outros dois imperadores, notem a
diferença e resolvam igualá-lo aos outros, porém ao ordena-lo deixá-lo igual
aos outros, o Caos morre para dar origem à outra coisa, deixa de existir como
uma coisa sem diferenciação e sem identidade.
O Caos como uma correspondência ao embrião em formação que
se encontra em estado de plenitude, no “paraíso”, pois todas as suas
necessidades são supridas, vive em um estado de bem-aventurança passiva e neste
estado pode ser comparado ao da beatitude no paraíso.
O embrião e a criança pequena vivem imerso no inconsciente,
seu ego ainda não está desenvolvido, é o que Neumann (2003) nomeia de estado
Urobórico.
O símbolo da cobra que morde o próprio rabo, ou seja, ela está
contida em um estado primal, onde dentro do inconsciente se sente completo.
Assim os mitos vão descrevendo cada etapa do
desenvolvimento humano, deste, sua origem até a plena maturidade.
Sendo o desenvolvimento individual um reflexo do
desenvolvimento da espécie e vice-versa.
Aqui só foi descrido o início dessa jornada, a primeira
etapa desse desenvolvimento.
Mas, nesse processo chegará o momento em que a Urubóros se
transformará na Mandala, ápice dessa jornada.
Por isso, que o símbolo da mandala aparece em diversas épocas
da história e em diferentes povos, inclusive nos dias atuais.
E para cada etapa existe um mito correspondente, assim o
mito permanece, sendo o guia para cada indivíduo que o reconhece como tal.
Saber que não se o único que percorreu essa estrada é nem
será o último, em certa medida traz segurança, pois nessa busca pela plenitude
não se está sozinho, existem muitos que já percorreram esse caminho e muitos
que ainda virão a percorre-la.
Referências bibliográficas
CAMPBELL,
J. A Máscara de Deus. – Mitologia Primitiva. São Paulo: àlas Athena. 2003.
ERIKSON,
E. H. Identidade, Juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar. 1991
FERRARI,
A. B. Individuo – Universo dos Mitos. Revista Brasileira de Psicanalise. Vol
35, número 2. São Paulo: S/E. 2001.
HUSTON, J. The passion of Isis and Osiris: a union of
two souls. New York: Randon Hause. 1995.
NEUMANN,
E. História da origem da consciência. São Paulo: Pensamento. 2003.
LARRE,
C. Les Chinois, Auzu, historie ancienne des Peuples. Paris: Lidy. 1982.
TATTAERSAL,
I. L’émerge de l’homme – Essai sur l’évolutium et l’unicité humane. Paris:
Gallimard. 1999.
WIEGER,
L. Les Péres du Systéme Taoiste. Paris: Cathaisa. 1950.






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