sábado, 23 de janeiro de 2016

A Busca Incansável do Ser


Vive-se em uma época em que a razão abrange vários âmbitos da sociedade ocidental. Tudo e todos precisam de uma explicação e demonstração científica para ser aceita como real, porém a busca pelo Ser está no âmago dos homens a ciência ainda não conseguiu localizar materialmente a necessidade dessa busca interna.
Assim se estabelece uma angustia de algo que está “perdido”, uma ansiedade de algo que não se consegue identificar.
Os padrões da sociedade não são mais satisfatórios. Posição social, reconhecimento em determinada área, não traduz o que realmente o sujeito é, então fica o questionamento “Quem sou? ” 
Queiroz (1996, p. 19) citando Küng, descreve como os sistemas políticos, econômicos e religiosos não correspondem às necessidades dos indivíduos ao criar um mundo superpovoado e pilhado em sua essência. Surge um estado de desesperança e profunda angústia levando o Homem a um mergulho em si mesmo em um mar de incomunicabilidade, parte em busca de alguém ou algo para se apegar e dar sentido a sua existência e ao encontro de si mesmo. Contudo não existe mais um único caminho, um único sentido, mas sim vários, infinitos, não há mais um exclusivo centro. O que existe é uma constelação de fatores que lhe oferece uma aura transitória e mutável, desprovida do antigo sentido de filiação e engajamento. Não há domínio moral capaz de conectar permanentemente o ser e a sociedade.
 Em uma tentativa de se posicionar o ego, frente a “enxurrada” de informações que as sociedades tecnológicas invadem o ser, procurar a integridade do ego e o desenvolvimento pleno da identidade, o indivíduo torna-se um amor pós-narcisista do ego humano, uma experiência que transmite uma ordem e sentido ao mundo.
Todos esses encontros e desencontros formam flutuações de humor, e através de seus questionamentos segue em busca pessoal e coletiva.
Esta situação se caracteriza a aquisição de caminhos novos para sua realização como uma identidade própria nesse âmbito sem a intermediação direta das instituições religiosas, politicas, etc. Ocorrendo a diminuição das autoridades, sobre o “eu”. Esta dinâmica que lembra a imagem do mar em seus altos e baixos.
 Para tanto se apresentam com um predicado “nômade”, um traço de comportamento adolescente que procura cisão com a autoridade vigente, o contexto familiar, as figuras parentais, as figuras de poder, para se manter integro perante a si mesmo.
O mito tem por função compreender o homem tornando-se um modelo das atividades humanas. Pode ser compreendido “como uma realidade viva à qual se está sempre recorrendo, como uma codificação do vivido” (PRADO, 2000, p. 27). Os mitos atuais revelam as potencialidades de expressão da forma particular o sentido da religiosidade do homem ocidental contemporâneo entre a individualidade e o coletivo. (FERRARI, 2001, p. 25).
O mito do herói remete à figura do jovem, essa mesma imagem se encontra refletida na busca desenfreada da sociedade contemporânea pela eterna juventude, o consumo descomedido, a busca pelo corpo perfeito, que nos casos de modelos extremamente magros espelham corpos imaturos, típicos dos jovens em formação. (DOMINGUES, PRÓCHNO, 2004, pp.147-156).
 Percebemos que o adulto contemporâneo vive como um adolescente, acreditando no mito da eterna juventude, reforçado pelo consumo desenfreado de produtos que prometem a beleza e vida eterna ... (Ibid. p.154)
 Os mesmos elementos que se encontram nos mitos atuais encontram-se entranhados na mentalidade do Ocidente graças a todo um processo de miscigenação cultural e ao sincretismo religioso. A mentalidade do homem ocidental, individualista sempre preocupado com causas próprias e em provar socialmente seu valor por proezas e atos de bravura. (Ibid). 
Tudo isso constitui o seu dia a dia na luta da sua manutenção e sobrevivência.
A identidade acompanha essas mudanças enfrentando os mesmos desafios e fornece respostas às crises existenciais (ERIKSON, 1971) que os novos tempos solicitam dos seus membros juntamente com os mitos atuais.
Osório (1989) levanta a hipótese que essas mudanças vivenciadas na sociedade ocidental contemporânea, a transformação dos seus mitos e da sua religiosidade refletem a crise de identidade que a sociedade atravessa análoga aos adolescentes (OSÓRIO, 1989, p. 34). Não por acaso, que os mitos atuais são representações de jovens, como o Neo (Matrix), artistas de televisão, super-heróis que precisam o tempo todo provar seu valor para si e para o grupo ao qual pertence. (FERNANDES, 2005, p.3). Estabelece, assim, sua identidade como indivíduo e como grupo.
Vive-se em uma época que todos os preceitos estabelecidos são questionados, nada mais é constante, fonte de conforto, a todo momento as “verdades” pré-estabelecidas são questionadas, assim os indivíduos não reconhecem mais o caminho que tem que trilhar, tudo deve ser questionado e restabelecido, simbolismo claro de uma época de mudanças radicais, e toda mudança desse nível gera uma gama de sentimentos conflitosos como: medo, ansiedade, depressão, etc.
Essa busca é individual e esses sentimentos só iram passar quando o indivíduo se colocar inteiro frente ao “mar” de mudanças que a sociedade atual invade todos os recantos do mundo.
A humanidade se encontra em um período de transição, segundo a psicologia evolutiva, está mudando, se desenvolvendo rumo a um novo patamar, esse período de transição pode ocorrer mais depressa ou mais lentamente dependendo de cada um fazer sua parte, para que isso ocorra.
Por enquanto, não existe meio político, religioso, mídia, sociedade em geral, que satisfaça ou acolha cada pessoa na face da terra. 
Assim a busca do Ser continua, até alcançar sua plenitude, primeiro individualmente, depois atingindo toda a espécie Humana.

 Referências Bibliográficas

ERIKSON, Erik H. Infância e Sociedade. Rio de Janeiro. Zahar. 1971.
____________ Identidade, Juventude e Crise. Rio de Janeiro. Zahar.1975
DOMINGUES, E. M. PRÓCHNO, C.C. Corpo e Novas Forma de Subjetividade. Disponível: http://redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/307/30701409.pdf. 2004. Acesso: 12/3/2007.
FERNANDES, E. R. O Espaço do Mito nas HQS Contemporâneas. 2005. Disponível: http://www.ciencialit.letras.ufrj.br/encontro/Evanil%20Rodrigues%20Fernandes%20-%20UNINCOR.doc. Acesso: 14/3/2007.
FERRARI, A. B. Indivíduo - universo dos mitos. Revista Brasileira de Psicanálise. Vol. 35, número 2. p. 305 São Paulo. S/E. 2001.
OSÓRIO, L. C. Adolescente Hoje. Porto Alegre. Artmed. 1989.
PRADO, M. C. Destino e mito familiar: uma questão na família psicótica. São Paulo. Vetor, 2000.
QUEIROZ, J. J. (org.). Interfaces do Sagrado emem véspera de Milênio. CRE PUC-SP. São Paulo. Olho dágua. 1996.


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